Apresentação do Livro “Um político assume-se” de Mário Soares

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Quero, em nome da CMFA, agradecer a todos a vossa presença e em especial, naturalmente, ao autor do livro aqui hoje apresentado, Dr. Mário Soares.
A presença aqui, em Ferreira do Alentejo, de um dos maiores vultos da História Política Portuguesa deixa-nos orgulhosos e simultaneamente com um sentido de estarmos também a dar o nosso contributo para o maior conhecimento da nossa História recente, e também (ainda) de prestarmos uma grande homenagem a um dos Homens responsáveis pela entrada de Portugal no mundo dos países democráticos e desenvolvidos.


Numa altura em que se comemoram os 38 anos da Revolução, que melhor maneira do que esta em ter aqui um dos principais intervenientes na consolidação da Democracia em Portugal e ouvir (também) em discurso directo e, sem interferências, a experiência vivida nesses conturbados mas necessários tempos de luta pelo fim das guerras colonias e da criação em Portugal de um regime livre e democrático (pluralista e civilista, nas palavras do autor)?
O livro “Um Político Assume-se, Ensaio Autobiográfico, Político e Ideológico” aqui apresentado hoje, pretende ser (nas palavras do autor) uma “espécie de autobiografia política e ideológica”, e não memórias, como faz questão de assinalar no prefácio. Acrescentamos nós que é igualmente uma obra de grande valia e que verdadeiramente se assume como um documento histórico para as gerações futuras. A forma escrita apresentada é de tal maneira direta e objetiva que contagia desde o primeiro ao último momento e faz-nos querer mais.
A obra, dividida em 15 capítulos, inicia-se precisamente com um elogio à Política e à Atividade Política. Diz o autor que sempre foi “Político Profissional e Com Muita Honra” . “A Política, afirma, implica ideias, ideais, fortes convicções, vontade de servir, desinteresse pessoal, patriotismo”. Algo, acrescentamos, lapidar que todos nós, nunca, em alguma ocasião, deveremos esquecer. A tentativa (em parte neoliberal) de tentar denegrir a imagem dos políticos deve ser combatida e (dizemos nós) os políticos deverão ter uma atitude cada vez mais respeitadora e exemplar a nível ético, por forma a continuar a enobrecer esta forma de “servir os outros”.
Logo após, vem a descrição de Mário Soares “Republicano e Anti-Fascista”, desde a infância, com a influência familiar e de um ambiente onde circulavam pessoas que viriam a fazer parte da nossa História Coletiva e que marcaram também, obviamente, o pensamento do autor.
De militante comunista, a neutralista, europeísta (tentando fundar o Movimento Europeu em Portugal) e anticolonialista, com “prisões à mistura”, com a própria desilusão do apoio das potências vencedoras da II Guerra ao Estado Novo, pelo inconformismo com a ausência de Liberdade, passando pela criação da Acção Socialista Portuguesa (ASP) em 1964 até à criação em 1974, em Bad Munstreifel, do Partido Socialista, Mário Soares, descreve nesta obra, com conhecimento-participante na ação, muito do combate político desenvolvido contra a ditadura de Salazar e de Caetano.
Quando se preparava para ir falar com Willy Brandt, então chanceler da República Federal Alemã e explicar a iminência de uma revolução militar em Portugal, surge, como o autor a descreve, “Enfim a Liberdade!”
A Revolução estava em marcha e depois de dissipadas as dúvidas sobre o êxito do Movimento (já que o levantamento frustrado das Caldas da Rainha em Março comandado pelo então major Monge (que nos deu a honra de estar aqui hoje) os tinha feito pensar duas vezes, em conjunto com outros camaradas de exílio (a esposa, Ramos da Costa e Tito de Morais) contrariando o conselho ponderado de Raúl Rêgo, e depois de ultrapassadas muitas dificuldades de transporte e outras, chega com um grande impacto no País à estação de Santa Apolónia, em Lisboa! (num momento único para o início da Democracia em Portugal).
O Partido Socialista começa a dar os primeiros passos na sua afirmação nacional e como garante da normalidade democrática, num PREC (Período Revolucionário em Curso) que, poderemos dizer a esta distância, doloroso para muitos e para a economia do País, mas próprio de um País que tinha estado 50 anos sob um regime ditatorial e queria, a todo o custo, começar a “repartir direitos”. As dores de crescimento seriam inevitáveis…
Dr. Mário Soares vê reconhecida, na prática, o enorme prestígio que adquiriu ao desempenhar funções de Ministro dos Negócios Estrangeiros e Primeiro-Ministro nas primeiras eleições livres em Portugal.
É também este um dos grandes trunfos que Portugal passa a ter, com a ligação ao Países democráticos na Europa que permite ao País ser ajudado financeiramente e, mais tarde poder assinar o Tratado de Adesão à Comunidade Económica Europeia.
Com a entrada do nosso País na CEE, e consequente normalização democrática, nas palavras do autor “terminava um ciclo importante da História Portuguesa. Outro se abria, não menos empolgante” Presidente de todos os Portugueses, através de uma primeira eleição muito renhida e difícil, com uma sociedade portuguesa dividida em (também e ainda) em dois grandes “blocos ideológicos”, termina o seu segundo mandato como Presidente, com um crescendo de popularidade em todos os sectores políticos e ideológicos e sociais do País afirma, no capítulo XII que “Não Foi O Fim de Uma Carreira Política, porque nunca viu a política como “carreira”, mas foi um “momento alto da sua vida”. Deixou, afirma, de ser um “Homem de Partido” – Republicano, Laico e Socialista, e passou a ser reconhecido como “Um Patriota”. Acrescentamos nós, que o Dr. Mário Soares (utilizando um slogan muito usado) “Uniu os Portugueses e Serviu Portugal”.
O capítulo posterior é dedicado à experiência como Presidente da Comissão Mundial Independente Para os Oceanos no âmbito das Nações Unidas e ao facto de ter dado um contributo relevante em 1998 para o Ano Internacional dos Oceanos. E depois, também e ainda, como deputado no Parlamento Europeu sendo o Parlamento (considera o autor uma “fonte extraordinária de aprendizagem e de informação especializada sobre os grandes temas internacionais”). Aqui também se relembra a consequente “não-eleição” para Presidente do Parlamento. Mário Soares quis, mais uma vez ser contra o “establishment” e tentou romper com os acordos entre as duas maiores famílias políticas europeias…não conseguiu, perdeu as “eleições, mas (ficou) satisfeito com a sua consciência” e nós (quase todos) ficámos a admirá-lo ainda mais…
A necessidade de dar um “sério contributo para poder ultrapassar uma crise complexa e prolongada”, fez com que Mário Soares apresentasse em Outubro de 2005 o Manifesto Eleitoral de candidatura à Presidência da República. Vale a pena transcrever o que foi dito na altura “Ao contrário da minha intenção de candidatar-me porque as circunstâncias mudaram” Os desafios – numa União Europeia à deriva e sem rumo seguro – tornaram-se mais perigosos. Aproveitando o descontentamento provocado por medidas impopulares, mas necessárias, está a surgir à Direita, batido no plano eleitoral, um certo messianismo revanchista e vozes com peso político que reclamam abertamente a subversão do regime constitucional e das conquistas sociais, utilizando para isso a eleição presidencial. Ora os Portugueses sabem que, coerente com o que sempre fui e sou, nunca voltei a cara às dificuldades ou aos desafios (e foram muitos)que o País enfrentou, venceu e enfrenta hoje de novo”.
O resultado foi o conhecido, mas Mário Soares continua a ser uma referência ao nível da “Melhor Opinião” em Portugal e continuará a dar o seu contributo para o Humanismo e Ética política no nosso País.
No último capítulo, crítico que está com o caminho da EU e dos seus líderes, das “criminosas agências de rating” e especuladores financeiros, admira OBAMA e continua firmemente convicto e partidário do “Socialismo em Liberdade – visto que sem Liberdade não há desenvolvimento nem progresso, como a História nos tem demonstrado”, é também um europeísta convicto (apesar, constata, da manifesta incapacidade dos dirigentes europeus).
Sem querer ocupar mais do vosso e nosso tempo, não poderia deixar de me referir à enorme influência que o Dr. Mário Soares teve na vida política e cívica de muitos de nós. Estão aqui alguns presentes e outros já partiram da nossa realidade. Um deles, o Aníbal Coelho da Costa, (o Dr. Costa para todos os outros) da qual tive a honra de ser filho (e todos os filhos que bons pais têm são por eles influenciados e politicamente determinados, como aconteceu também com o nosso convidado desta noite) sempre me disse, apesar de nunca o ter referido publicamente, que tinha ouvido a Dra. Maria de Jesus Barroso, falar no primeiro comício do PS realizado em Beja num discurso de tolerância e de bondade que foram o necessário para convencê-lo a aderir ao PS (ele que tinha sido candidato no distrito em 1969 pela CDE, em oposição do regime de M.Caetano). Toda a sua vida me disse que era com o PS com que mais se identificava, mas que era ainda mais SOARISTA (e sabemos que o nosso convidado nunca gostou da palavra) do que do PS, tal era a sua admiração por Mário Soares. Foi uma vida de grande dedicação à sua causa profissional (medicina) e à intervenção cívica desde o tempo da candidatura de Norton de Matos até aos nossos dias… Gostaria, seguramente, de estar aqui hoje.
Apesar de, desde que me lembro ter ouvido falar de Política (sempre no sentido de Ética, Serviço Público e Humanismo e Ajuda aos Outros) e convivido com pessoas do PS, materiais de campanha do PS, foi a partir dos 8/9 anos que fiquei ainda mais desperto para tudo isto quando, estando o meu Pai, que se encontrava a recuperar de doença em Lisboa (num apartamento na Rua Gonçalves Crespo – perto do local de nascimento do nosso convidado) a minha Mãe acorda-me de uma tradicional sexta (nessa altura ainda tinha tempo para dormir à tarde) e diz-me para ir ter à sala para ver quem lá estava…é verdade era o Dr. Mário Soares que numa atitude de grande solidariedade foi visitar o meu Pai (que claro ficou bastante reconhecido) e que prontamente perguntou à minha Mãe…-este é que é o “Pequenino”?
O “Pequenino” foi crescendo e se já estava entusiasmado com a Política e sobretudo com o PS, foi ESPECIALMENTE motivante um episódio que se passou aquando do MASP (Movimento de Apoio Soares à Presidência) em que depois de regressarmos de um fim-de-semana em Lagos, no Algarve, eu, mais uma vez a dormitar (desta vez num Mercedes que na altura já tinha 20 anos e que ainda hoje existe) sou acordado pelos meus Pais que avistam (como agora se diz) uma “SUPER-MEGA BUÉ GRANDE” Caravana Automóvel (talvez com mais de 400 carros, o que na altura ainda era mais significativo) com os apoiantes da candidatura do Prof. Freitas do Amaral (seguramente à espera do candidato) perto de Santana da Serra (Ourique).
Reacção do meu Pai quando viu aquele “Mar de bandeiras Azuis” com indivíduos com “palhinhas” na cabeça “Mãos de Plástico” com Dedos em Forma de “V”: - Maria de Fátima (minha Mãe), Aníbal, tirem as bandeiras de fora (acessórios que nos acompanhavam sempre no carro) e comecem a gritar – “SOARES É FIXE!” “SOARES É FIXE!” “SOARES É FIXE!” Assim que passávamos pela aquela “Onda Azul” havia um misto de espanto e de raiva, e por pouco o Mercedes de 1965 não ficava ainda mais danificado…e, acreditem, não era de desgaste natural!
Depois disso (e de me e nos termos apercebido que a campanha estava de tal forma radical e extremista) existiu inclusive um rumor (ou mais do que isso) de que a própria vida do meu Pai estaria em risco, e em que, inclusive, houve “guarda-costas populares”, que, seguramente, não tinham votado Soares na Primeira Volta das Eleições, à porta da minha casa para proteger o meu Pai, no caso dos piores receios se concretizarem…
Comecei (e tinha 12 anos de idade) a perceber que na atividade política, como em tudo na vida, é preciso coragem e um “espírito forte e convicto”. A partir daqui percebi que é importante que nos assumamos e que lutemos por aquilo em que pensamos ser o melhor para todos.
É isso que pensamos do autor do livro que continua idealista, solidário e defensor das grandes causas.
O livro, como o Dr. Mário Soares afirma, é um testemunho de uma vida muito variada, de “altos e baixos”, como sempre acontece, mas dos quais não se queixa. E apesar do pessimismo envolvente, não perde a esperança e continuará a lutar (como sempre esteve) voltado para o Futuro…!

É também esta a nossa inspiração e a nossa referência!

Muito Obrigado pela sua presença aqui hoje!