(Tri)Vial VI

1) "Winds of Change" - O Muro de Berlim foi derrubado há dez anos, e seria injusto da nossa parte, jovens e socialistas, deixar pensar em claro aquele que foi "o acontecimento de todos os acontecimentos". O criador da nova Ordem Mundial (nos anos que se seguiram pensou-se que seria "Desordem") Símbolo da divisão política, ideológica, económica do Mundo, depois de 28 anos de opressão existencial foi derrubado a golpes de picareta por tantas pessoas sequiosas de liberdade e de democracia, arrastando com ele países (satélites) que viram neste acto como que uma "senha de passagem" para também eles se livrarem de uma vez por todas de regimes "caquéticos, obsoletos e retrógrados" que não souberam responder como se exigiria ao "pujante e (aparentemente) bem sucedido Capitalismo ocidental.


De tal forma esta divisão bipolar do mundo se tinha acentuado, que, por inúmeras vezes que se lidava com uma qualquer questão, a tendência era dizer-se que se uma coisa era branca então a outra teria invariavelmente que ser "preta". As posições dos partidos a níveis nacionais radicalizavam-se e a "moderação política" era qualquer coisa olhada com desconfiança, quem não era "Americano" era "Soviético", mesmo que "Americanos" não o fossem!
Palavras como a ocidentalização, sovietização eram ditas com uma normalidade que, visto a esta (curta) distância, nos parece quase absurda, mas de facto existiram e não foram só os 239 "Alemães de Leste" (que passados dez anos ainda continuam a ser, em designação e condição) vítimas directas do "Die Mauer", que sucumbiram na "Guerra Fria".
Por isto, se compreende que uma grande panóplia de autores de economia política, internacional, etc (sempre baseados numa visão Maniqueísta do Mundo) que sempre tinham vivido com a ameaça do "Império do Mal" e da Guerra de Blocos, tenham solenemente proclamado "o Fim da História" (Fukyama) e o começo do caos... Fim da História. Não. Talvez, como alguém disse na altura, o "Fim de Algumas Histórias". Desordem Mundial? Onde?! Com o fim de uma superpotência a outra ficou com o terreno mais livre para percorrer, com maior poder e influência. A teoria do "polícia global" (EUA) evitou, quer se queira, quer não que as coisas ficassem complicadas em muitas situações.
Os resultados directos desta "Revolução de Veludo" (não só na antiga Checoslováquia, mas em todo o "bloco de Leste") repercutiram-se por todo o mundo, com o fim de situações de guerras civis e outros conflitos e forçando os partidos comunistas de todo o mundo, dantes meras "delegações internacionais do PCUS" a fazerem severas introspecções por forma a adequarem as suas ideias à prática política do respectivo país. Ora... isso por cá... não sucedeu. E não é reconhecendo, muito timidamente, "as derrotas do socialismo do Leste europeu" num encontro internacional de jovens comunistas, que o actual Secretário-Geral do PCP consegue levar a sua "avante". O PCP, apesar desta "séria" (e esperávamos premonitória) investida contra as "dolorosas feridas do passado" não se consegue libertar de um Pensamento que cada vez mais, diz menos, a muita gente. Reconhece-se o erro, o modelo falhou, "não era este o socialismo que defendíamos, "reconhecemos os atrasos de gravíssimas consequências" e na semana anterior, na Semana da República critica-se vivamente o 10.º aniversário da queda do Muro... Será que o Dr. Carlos Carvalhas mudou mais nesta semana do que nos últimos dez anos? Ou será que dentro do Partido Comunista as coisas são (realmente) diferentes e antagonismos políticos começam ser mais visíveis (Carlos Carvalhas vs PCP)?
A ver vamos, mas... para a ainda significativa amostra de militantes comunistas do nosso país e que sempre "dogmatizaram" a política vai ser complicado abandonar a "fé", a qual pode sofrer um abanão mas dificilmente se perderá. É que para esses o Muro não passou mais do que uma obra defensiva dos perigos ocidentais e por vontade deles ainda lá estava...

2) "The Third Way" - Dez anos depois da queda do Muro, António Guterres é eleito, em Paris, Presidente da Internacional Socialista (IS). Desnecessário será dizer que este cargo reveste-se de uma importância e visibilidade fundamentais não só para o próprio como Portugal, Está bem patente o prestígio que Portugal, o PS e António Guterres alcançaram nestes últimos anos do qual todos nós podemos e devemos orgulhar.
O socialismo democrático anda à procura de ideias, e a IS é um fórum privilegiado de debate, reflexão e análise dos diferentes caminhos que os partidos socialistas, sociais-democratas e trabalhistas procuram para responder a problemas civilizacionais neste (quase) início de século. Para tal, os teóricos do Trabalhismo inglês apresentaram a chamada "Terceira Via", que tem como principal representante o PM Inglês Tony Blair que resumidamente defende que (este movimento) representa uma "democracia social modernizada, envolvida na defesa da justiça social e nos objectivos do centro-esquerda, mas flexível, inovadora e com uma visão de futuro nos meios para os atingir (...) procura aproveitar os valores essenciais do centro e centro-esquerda e aplicá-los a um Mundo de importante mudança social e económica e para o conseguir deverá abandonar uma ideologia obsoleta...." (fim de citação).
Sem querer fazer deste pequeno espaço uma reflexão sobre as novas formas de socialismo democrático no século XXI, não posso deixar de manifestar grandes reservas ao que diz Blair, sabendo que algumas das coisas que afirma serem inevitavelmente grandes verdades, mas... também não defendamos um modelo tão adaptado a um partido inglês, com tantos problemas de modernização e afirmação na sociedade como é o Labour... Se é certo que muitos partidos europeus defendem (e praticam!) o modelo sugerido na reflexão de Blair e assim subiram ao poder (mesmo que não tenha sido só por isso), não é menos certo que se não tivermos um espaço político bem definido, apesar de não ver as coisas a "preto e branco", corremos o risco de nos vermos permanentemente confundidos com outros...e como diria alguém há uns tempos atrás...entre o original e a fotocópia... prefere-se (independentemente dos defeitos) do original...

3)Free Trade, Fair Trade? - Nos próximos dias 27 de Novembro a 3 de Dezembro, os EUA acolherão a terceira conferência interministerial da Organização Mundial de Comércio (OMC), em que 134 países-membros abrirão o "Ciclo do Milénio", isto é, as negociações globais "para a abertura dos mercados em matéria de bens, serviços e agricultura". Criada em 1995, e com o objectivo de suprimir todos os entraves ao comércio mundial só agora (como tudo indica) a OMC contará com a 10.º potência comercial do mundo - a China (depois da "abertura ideológica", e direitos humanos à parte).
A teoria destas coisas é sempre muito positiva, no seu postulado defende-se que quanto mais comércio houver, mais crescimento e riqueza haverá para todos. Porém o que se passa é ligeiramente diferente, como a História no-lo demonstra: o livre-comércio favorece essencialmente os fortes e arruina os mais fracos, como se atesta com a situação de inúmeros países de África e América Latina, que "inocentemente" acreditaram nesta quimera económica, ou foram "forçados" a acreditar... Na cimeira de Seattle vai-se falar nada mais nada menos do que a liberalização de sectores como a Saúde, Segurança Social e uma "economicização" de valores muito caros aos socialistas. Pouco poderemos fazer dirão... de facto, como País pequeno e pouco importante dificilmente atingiremos algo, como bloco europeu fundamental para a mundialização económica talvez...
Mas temos o dever moral e social como socialistas de procuramos não uma "via" mas várias que permitam lidar com situações variadas, sem que fiquemos arreigados a uma "ideologia obsoleta" incapazes de reagir a um mundo com uma "velocidade progressivamente acelerada" e em que cada vez mais se lida globalmente. Temos a obrigação de procurar soluções em que o ideais de justiça e bem-estar não sejam comprometidos por um regime económico totalitário à escala mundial, ou como diria uma pensadora francesa um regime "globalitário"...
Citando Siro, quem tem coragem para enfrentar os perigos vence-os antes que eles o ameacem...