(Tri)Vial II

1) Com "tricas" processuais o PSD consegue perturbar o andamento daquilo que parecia lógico, racional e saudável para o bom funcionamento das instituições do nosso sistema democrático - a "limpeza dos cadernos eleitorais" com vista a realização dos referendos para o próximo ano (Lei das Regiões e Tratado de Amsterdão). Como se sabe, a Lei do Recenseamento necessita de uma maioria qualificada de dois terços dos deputados.


É este o PSD do Prof. Marcelo, procurando usar artifícios para recusar o referendo e consequentemente o processo de criação das Regiões Administrativas. Está-se, cada vez mais, a ver que este PSD não tem uma lógica de poder, nem qualquer tipo de "sentido de Estado" (a concordância com a política europeia não é suficiente). Vive da micro-política, do aproveitamento fácil, da demagogia, pensando que obterá dividendos com tal atitude "Monteirista"(ver portagens do Oeste, etc, etc). Ninguém acredita no prof. Marcelo, e o PSD não só correrá o risco de perder votantes, como se assume cada vez mais como o partido de um descrédito crescente.
O PSD não tem autoridade para denunciar situações pessoais graves que vieram a público, porque se é certo que todos os partidos têm telhados de vidro, o PSD esteve durante dez anos no governo e as pessoas que constituíram esses governos continuam instaladas no partido do Prof. Marcelo e alguns até são candidatos às autarquias mais importantes do país. O professor Marcelo deveria (como diria Einstein)" procurar ser um homem de valor em vez de procurar ser um homem de sucesso" porque caso contrário...

2) Em França, antes de Lionel Jospin obter quase 48% dos votos para a Presidência da República, ninguém (do ponto de vista político-eleitoral) dava nada por ele.
Com este resultado (que dadas as circunstâncias se pode considerar histórico) Jospin conseguiu fazer tremer Chirac, fazer um "rassemblement" da esquerda francesa e assumir-se, mais tarde, como líder incontestado de um PSF completamente destruído por casos de corrupção, aproveitamento pessoal de cargos públicos e que tinha menos de 20% do eleitorado. Um PSF que tinha perdido as referências pessoais (Mitterrand tinha desaparecido e Rocard estava desacreditado) e que se encontrava à deriva, seguindo vertiginosamente o caminho que levou à destruição do PSI, em Itália.
Jospin travou o processo de desintegração do PSF e não só isso, como levou , na altura o terceiro partido em França, ao poder e constituiu um executivo com todas as forças de esquerda e que actualmente é considerado um dos mais competentes que a França teve nestes últimos anos.
O segredo: capacidade de trabalho do governo, diálogo, tomada de decisões e uma grande dose de modéstia aliado a um esforço enorme de moralização, transparência e seriedade que já tinham deixado de ser característica do governo de direita que antecedeu Jospin.
Um estudo de uma entidade de estudos sociológicos em França apontava para a necessidade crescente que os franceses têm de "regras mais consensuais, de princípios mais rigorosos, de neutralidade moral dos homens políticos" e todos nós devemos reflectir sobre este ponto que é e, em meu entender, será determinante para a actividade política do século XXI. É ser... mas é também parecer. Ninguém se esqueça disso.

3) A atitude de "Homem de Estado" tomada pelo nosso camarada e ministro António Vitorino veio confirmar o que muitos já pensavam: Vitorino é uma pessoa que o partido socialista se deve orgulhar de Ter, é um senhor na verdadeira e clara acepção da palavra, são referências como esta que devem pautar a vida não só dos mais jovens, mas, infelizmente ... dos "já não tão jovens".
Todos sabemos que o regime democrático pauta-se por uma avaliação da actividade dos governantes e se é certo que 99% da população "foge à Sisa", não é menos certo que se for um ministro (ou qualquer outro membro superior da Administração Pública) o caso assume outra feição porque é uma figura pública ...mesmo que o tenha feito inocentemente e sem intenção de "causar um prejuízo legal ao erário público". É este o sistema que temos que é o menos mau de todos os sistemas", e felizmente, tenho orgulho em dizer isto, é pessoas como António Vitorino que o dignificam, lhe dão credibilidade e que constituem como que "uma fibra divina" que sustentam todos os outros membros.
A expressão de enorme solidariedade, neste momento, com António Vitorino é a meu ver a melhor maneira de aguardarmos o seu (breve) regresso.
Pena é que... nem todos tenham a mesma dignidade, espírito socialista e, porque não dizê-lo "espírito de sacrifício", e ao invés se arrastem por um trilho de "show of", recusando ver que a demissão se deve tomar na altura certa se queremos guardar alguma réstia de dignidade e preservar a do colectivo... porque... os socialistas também se demitem (a demissão na altura certa não é um sinal de fraqueza mas de dignidade, lucidez e acima de tudo de espírito de verdadeiro socialista).

Aníbal Reis Costa
Ferreira do Alentejo