(Tri)Vial IV

1 - Sucessores - As ditaduras, quando se sustentam numa pessoa (ditaduras pessoais) tendem, quando essa pessoa morre ou se "extingue" politicamente, a reformular-se e a "adaptar-se" aos tempos do presente, à realidade que provocou a queda do "grande líder", ou ainda mais comum mostrar uma tolerância fictícia para "acalmar os exaltados ânimos" sem nunca mudar realmente nada no que diz respeito à defesa dos direitos e liberdades humanas. Quando isto resulta temos ditaduras com laivos mediáticos de democracia. Quando não... revoluções.


Na Indonésia... resultou. O lacaio do regime (Habibie) mais não é que um afilhado de Suharto que já demonstrou ser inapelavelmente favorável a uma ditadura não muito disfarçada. Os ministros são praticamente os mesmos (Alatas persistentemente resiste) e o modo de actuar terá invariávelmente que ser o que sempre foi, desde que Suharto ascendeu ao Poder.
A operação de cosmética levada a cabo pelo regime com o apoio (tardio é certo) do exército serenou o povo e permitiu a que umas mentes mais "amigas da democracia" pudessem ficar mais descansadas porque "a base do regime" tinha desaparecido ! Mas será que desapareceu ? Acho que não !
É que nestes casos e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência, não basta mudar uma cara (seja mais magra ou mais gorda) é necessário liberdade, legitimidade e legalidade para se exercer o poder da forma mais justa e digna, porque caso contrário não há nenhuma razão para crer que "a figura carismática" não esteja na sombra a coordenar os movimentos de marionetes políticas... e as coisas ficarão (para mal da maioria) rigorosamente na mesma...

2 - Derrotismo ! - É absolutamente necessário enaltecer o extraordinário evento realizado pelos portugueses e com os portugueses que é a EXPO'98. Todos nós nos cansamos de ouvir que os portugueses se queixam muito e que nunca sabem dar mérito a quem o possui.
É assim na vida política, cultural, social, desportiva, etc. . Houve mesmo, antes da grande exposição começar, uma certa "elite cultural" (com muitas aspas) que por devaneio literário ou por um catastrofismo existencial, próprio de uma mentalidade de início de século, resolvesse "atacar" com todas as forças que conhece (e não são assim tantas como isso) aquele que é um dos maiores acontecimentos do século no nosso país, e provavelmente aquele que (directa e indirectamente) mais fez/faz pela consolidação da imagem de um país na senda do progresso e que muito desenvolveu neste último quartel do século XX.
É próprio de alguns dizer mal do que pode ter sucesso, talvez porque não queiram a "cosmopolitização" do país, ou talvez porque pensem ainda que Portugal tenha que ficar resignado à sua sorte de país pequeno e periférico.
O que é certo é que a evidência do (até agora) êxito da EXPO'98 (êchpó de exposição e não eqspó) desfez por completo as afirmações derrotistas de certos senhores. É que, como dizia alguém, quanto menor o valor de um homem, tanto maior a sua severidade em avaliar o valor dos outros...

3 - Calendas... - Sempre fui, sou e serei um defensor da Regionalização, conforme o espírito previsto na Constituição da República, desenvolvido pela lei-quadro e continuado por iniciativa do PS a ser debatido (indiscritívelmente pouco) na sociedade portuguesa.
Sou contra as pessoas que defendem a Regionalização tendo por base sentimentos de controlo de Poder (isto é somos a favor se a região for fácil de controlar e se conseguir deter influência q.b. ... é-se contra se a região não servir os interesses -"deles"- e muitos tiverem o mesmo objectivo).
Estas pessoas ao tomarem atitudes destas estão claramente a fazer campanha pelo não, que aliás terá forte possibilidade de ganhar em minha opinião. A Regionalização é uma questão nacional e não pode, sob nenhuma circunstância, tornar-se, como tem acontecido, numa autêntica barganha de municípios -Ex1: eu fico com este e esse apesar de me ser bastante ligado não é da cor política, logo não o quero. Ex2 - Nós temos vinte e tal câmaras, logo se as integrarmos todas numa região temos mais votos do que eles.
Super, Absolutamente Fantástico... . Por este caminho ( e diga-se de passagem que não se tem saído dele) nem no final do III Quadro Comunitário de Apoio pensaremos em gerir democraticamente e com legitimidade popular os fundos da União Europeia aumentar o bem-estar dos portugueses.
E quem é que tem culpa disto ? Os que não querem delimitar as competências das regiões ? Os que temem um Benfica-Porto à escala nacional ? Os que prometeram a Regionalização e enviaram-na para as calendas ? Os que procuram referendá-la apenas para a remeter ao esquecimento ? Provavelmente todos!
Pergunte-se aos habitantes do interior do país o que pensam do centralização do poder, e se concordam ou não com uma das mais importantes reformas administrativas do século... Pois é... e lá vai um axioma do sub-desenvolvimento que nos assombra constantemente "los que quierem no puedem e los que puedem no quierem" !

Aníbal Reis Costa
Ferreira do Alentejo