(Tri)Vial V

1) Ainda (e peço desculpa pelo masoquismo) a Regionalização: Mais "a frio" ocorre reflectir porque é que a Regionalização foi tão "esmagadoramente" derrotada? Explicações do Prof. Mar(th)elo à parte, "uma das reformas mais importantes deste século para Portugal" não foi concretizada por variadíssimas razões, entre as quais: desconhecimento "puro e duro" (o "tiro no escuro" sai sempre pela culatra); partidarismo agudo em toda a discussão (o que é de resto inevitável em todos os referendos que se venham a realizar excluindo os casos de consciência individual/moral/cívica - Ex: IVG); campanha demagógica do lado do "Não" (apela-se neste caso aos medos colectivos e a todos os sentimentos básicos e extraordinariamente simples, ou seja, a destruição da unidade nacional/regiões mais ricas comem as mais pobres, ou ainda o altamente ultrajante "poupem nas regiões para dar às pensões").


Juntando a todos estes ingredientes deve-se adicionar a falta de experiência eleitoral no que diz respeito a referendos/desresponsabilização de muitas pessoas que ao verem que a "batalha estava perdida nem sequer foram para o campo lutar".
Estava claro ( e antes de começar toda a discussão) que não havia motivação e empenho para levar isto para a frente, só assim se explica que uma "longínqua terra" (do centro político-administrativo claro) denominada "Curros" e que (teoricamente) mais teria a ganhar com a Regionalização fosse a freguesia de Portugal mais anti-regionalista. Como diria Ortega & Gasset "Pouco se Pode Esperar de Alguém Que Só se Esforça Quando Tem a Certeza de Vir a Ser Recompensado"...
Fica Prá Próxima...!

2) Bom Vento e... - Resultante de ancestrais concepções a relação com o país vizinho sempre foi bastante periclitante (no dia posterior ao que escrevo) vai-se comemorar os 358 anos da Restauração da Independência, em que Portugal se libertou do "jugo Castelhano" e geograficamente se tornou no país que é hoje.
O facto do nosso país só confinar com este "gigantesco" país europeu, alimentou, sem dúvida alguma, ainda mais, o temor de uma eventual ameaça que pudesse surgir do outro lado da fronteira, receio este proveitosamente explorado e exacerbado pelo Estado Novo, como complemento do "nacionalismo português" Esta "geopolítica ibérica" serviu inclusive para atormentar os espíritos de muitos e dificultar aquilo que, actualmente, qualquer jovem tende a ver como perfeitamente natural, isto é que as relações com "nuestros hermanos" como país e Estado independente, reinvindicativo e consciente da sua força devem ser tratadas de uma forma aberta e transparente porque todos ganharão com isso.
O que se passou na cimeira do Algarve (com acordos importantes a vários níveis, sendo que o mais significativo foi a assinatura do novo convénio sobre a utilização dos recursos hídricos peninsulares) é reflexo de uma nova maneira de encarar as relações internacionais entre os dois países, que como membros da União Europeia, e como países do Sul deverão cada vez mais assumir posições comuns, não esquecendo, porém, que a Espanha é um país com dimensão e população consideravelmente superior a Portugal, e que por isso também o seu peso/interesses será diferente.
Longe do "Iberismo" que alguns sectores intelectuais dos dois países durante tanto tempo defenderam (ou defendem), existe sobretudo necessidade em se desmistificar toda uma relação completamente arcaica e passadista que não pode cohabitar numa época de globalização e pacificação(?) internacionais. O tempo o dirá se se consegue mudar este estado de coisas que desde sempre existiu...

3) Será que Chove em Santiago? - Augusto Pinochet Ugarte, 83 anos, ditador do Chile durante 17, assassino do democraticamente eleito chefe de governo Salvador Allende (com a complacência do Tio Sam da altura) vendo-lhe retirada a sua imunidade diplomática de Senador, foi preso em Inglaterra, e nem o apelo da sua "amiga de chá" M. Tatcher, agora Lady e pertencente à Câmara dos Lordes foi suficiente para evitar esta "humilhação pessoal" de mais um dinossauro que está prestes a cair...
O complicado disto tudo, é que o Chile não está particularmente interessado em deixar que um país (e logo a Inglaterra) julgue aquele quem alguns sectores chilenos (veja-se as "senhoras bem vestidas organizadas em reuniões -tipo Tupperware- que pedem a libertação do ditador) ainda defendem. Por último houve um apelo por parte do governo Chileno no sentido de se libertar Pinochet para ser julgado em casa, o que convenhamos, era o melhor que podia acontecer...para ele.
Apesar de algumas pessoas defenderem que o Chile e só o Chile poderá combater os "fantasmas do passado" e resolver internamente a sua situação, entendo que por uma questão de justiça, defesa dos direitos humanos e dignidade para todos os que perderam os seus entes queridos com a ditadura e que... presumivelmente não terão força/poder para julgar o "senador-general", (receios manifestados pela viúva de Allende), se deve avançar para um processo judicial, porque se a democracia tem "permissividades" que serão injustas nalguns casos (designadamente com os anti-democratas) também tem instrumentos que possibilitam a punição/condenação por tais comportamentos.
Como diria alguém "Numa Democracia Todos Têm o Direito de Errar", mas os chilenos que erraram não lhes foi concedido esse direito.